quarta-feira, 27 de abril de 2011

A (DES)NECESSARIA ORDEM

Pra. Silvia Nogueira


O que representa para as pastoras o pertencimento à Ordem dos Pastores Batistas do Brasil diante de tantas questões e tarefas mais necessárias e urgentes? Essa é uma pergunta que ouço com certa constância. E, de fato, diante do cotidiano desafio missionário, do cuidado pastoral com pessoas sob nossa responsabilidade na comunidade, diante da vivência cristã relevante no mundo, das respostas evangélicas às tensões do nosso tempo e das desastrosas consequências sociais da degradação do planeta, o pertencimento a OPBB é uma questão menor. No entanto, é algo que tem se constituído de uma forma que não é mais possível ignorar como uma necessidade na relação igreja batista-vocacionado-CBB. Para ser clara, colocarei os “poderes” em seu devido lugar.
Primeiro, ninguém – e é ninguém mesmo- pode arbitrar se uma pessoa, mulher ou homem, recebeu um dom do Espírito Santo, já que para os puristas está escrito literalmente que o Espírito Santo o faz como quer, a quem quer[1]. Isso por si só deveria encerrar qualquer discussão sobre essa questão, mas por séculos não tem sido esse o sábio caminho.
Segundo, no caso dos batistas brasileiros, se por um lado não se pode arbitrar sobre a quem Deus dá ou não dá dons, por outro, podemos e devemos reconhecer a vocação de uma pessoa, mulher ou homem, na vivência comunitária. Sim, porque é para servir em ministério eclesiástico que o Espírito Santo confere dons. Logo, a igreja deve reconhecer a vocação alegada pelo irmão ou irmã. Eis aí uma das mais belas manifestações da coletividade evangélica, já que é ela quem reconhece, legitima, abriga e mobiliza o ministério do vocacionado(a). Nisso repousa minha crença inabalável de que o pastorado batista é legitimado não por pastores, mas por igrejas. Daí a nulidade de uma carteira da ordem de pastores para ser pastor(a) e exercer o ministério.
Terceiro, para os mais preocupados com a tradição denominacional, é importante compreender que a CBB, na pessoa de sua diretoria e executivos, e mais, a assembleia da CBB, jamais fará coisa alguma que desabone a soberania e autonomia das igrejas locais, sobretudo, na questão dos ministérios ordenados. Então, se alguém espera um comunicado oficial, através de uma espécie de decreto para que a partir da data tal as igrejas filiadas possam ordenar mulheres ao ministério pastoral, vai ficar esperando ou se resguardando de agir nessa espera.
E a Ordem, como ela fica nessa relação Igreja-vocacionado(a)-CBB? Acredito que essa é a pergunta do momento. A Ordem não é um sindicato de profissionais do ministério pastoral batista, ela não é uma representação das igrejas batistas, já que muitos pastores e quase a totalidade das pastoras não são filiados à ela[2]. O que ela é, ou melhor, tem sido? Uma convidada das igrejas para participar de um momento sempre emocionante nessa relação Igreja-vocacionado(a). Percebam que não entro no mérito do porquê a atual ordem é resistente (a maioria simples, mas não unânime)[3] e proíba novas filiações de pastoras. O que na verdade faz com que o pertencimento das pastoras à Ordem se transforme em uma necessidade histórica da qual é importante um aggiornamento? porque esse grupo de cavalheiros tem se interposto negativamente na relação Igreja -vocacionado(a)-CBB. Quando uma igreja batista filiada à CBB convoca um concílio e, segundo sua tradição, e não por necessidade[4], quer seguir as recomendações da CBB[5] e emite um convite à Ordem ela aguarda ser atendida. No entanto, tem havido uma recomendação, se oficial, não sei, com “ameaça”, de que tipo, não sei, que tem impedido os filiados de atenderem tranqüilamente ao convite das igrejas. E mais, quando para a Ordem somente é pastor batista quem possui uma carteira da Ordem e, ao mesmo tempo, desencoraja, para dizer o mínimo, os seus filiados a atender a convocação da igreja, ela deliberadamente se interpõe nessa relação. Em resumo, a ordem tem dificultado, até em muitos casos, inviabilizado, o exame tradicional recomendado pela CBB de candidatas ao ministério da Palavra. Ou seja, a OPBB, lamentavelmente, está interferindo no exercício sagrado da vocação. Quem fez com que a filiação à Ordem se transformasse, portanto, em uma necessidade para as pastoras foi a própria ordem. Logo, se é uma necessidade, bateremos insistentemente, até que a porta abra[6]. A ordenação feminina, como todo processo histórico segue, tem etapas e é preciso cumprí-las. A de agora, diz respeito à visibilidade institucional necessária as vocações despertadas e assumidas publicamente há 11 anos. Caso não haja um reposicionamento da Ordem em aceitar o ingresso e a liberação dos filiados na participação conciliar quando convidados pelas igrejas, não significará um retrocesso no avanço das ordenações femininas no Brasil Batista. Graças a Deus, o processo não é visível nos meios oficiais, mas é pujante e irreversível. A Ordem chega atrasada nesse processo no qual ela é coadjuvante por tradição, mas que diz respeito especialmente e legitimamente a Deus-vocacionado(a)-Igreja. O que esperamos dela, sobretudo a partir de sua diretoria e executivo, é que acolha mulheres e homens a quem Deus chamou e igrejas batistas reconheceram em suas vocações. Gentil, mas firmemente, lhes peço, revejam a decisão de Cuiabá e preparem-se para realmente dialogar como colegas de ministério que somos.




Pastora Silvia Nogueira

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